Se você está procurando ativamente ficar perdido em Paris (...) eu recomendo que você vá para a linha C do RER. Não, é sério, é a coisa mais fácil do mundo você subir numa estação ali, tentando chegar em algum lugar inocente, como, sei lá, a Torre Eiffel, e ir parar na famosa caixa-prego onde Judas perdeu as botas, como, por exemplo, Juvisy ou Sauvigny-sur-Orges.
Eu sei, eu sei. Todo mundo diz que "não tem nada melhor que se perder viajando, pra você se achar e conhecer coisas novas" (ou uma versão curta do que eu acabei de dizer). Mas não acho que isso seja necessariamente verdade ou imprenscindível.
Hoje, fazendo um pouco de turismo com o namoradón (hehehe, eu não ia deixá-lo pra sempre sem conhecer a cidade, né?), eu tive que pegar a famigerada linha C pra ir até a estação Invalides.
Esses fatos todos que eu mencionei me fizeram lembrar uma história engraçada que pode servir de conto educativo para todos os quatro leitores do blog (OI, Eleonora!! ;D)
Em 2008, quando vim pela primeira vez conhecer a cidade, obviamente fizemos todo o circuito turístico. E o que poderia ser mais turístico do que subir a Torre Eiffel, não é mesmo? Como minha mãe não é lá muito amiga das alturas, ela decidiu ir adiantando a janta em casa, e eu, meu pai e meu querido irmão, na época com 12 anos, fomos cumprir essa etapa básica do Paris for Dummies.
Subimos, sem querer, na direção errada do RER C. Até aí, tudo bem! Errar é normal! Percebemos o engano na estação seguinte e descemos normalmente, prontos para recalcular a rota e pegar o trem certo.
DAÍ, a inteligência aqui comete seu primeiro real erro: confundir metrô de SP com metrô de Paris. Só porque você desce numa plataforma não significa que num dos lados você vai para direção A e, logicamente, no lado contrário, você vai para direção oposta, como acontece no metrô paulista.
A Raíssa notou um trem parado no lado oposto e disse: "Corre, família, que deve ser esse e deve estar partindo!" Entramos correndo, e ficamos lá, esperando, uns quinze minutos, quando meu pai tem a brilhante idéia de perguntar pra que direção aquele trem iria.
Erro número dois: esquecer que Paris tem algumas estações quase homônimas. É, quase.
Pai: "Esse trem está indo na direção de Saint-Michel?".
Passageiro 1: 'Sim, sim, é esse mesmo'.
O trem começa a andar.
Passageiro 1 olha para o meu pai, com sua cara de turista, acompanhado de seus dois filhos e percebe que pode ter acontecido um mal-entendido.
Passageiro 1 pergunta: "Você quis dizer Saint-Michel-Sur-Orges, né?"
Meu pai: "Não, Saint-Michel-Notre-Dame, em Paris..."
A cara do passageiro foi tão impagável que ela marcou-se para todo e todo sempre na minha memória. Acredito que eu poderia reconhecê-lo até hoje, em qualquer lugar. Foi um misto de surpresa, de vergonha e, claro, do clássico "Putz, eles estão fodidos!" que nós não pudemos conter a risada nervosa de quem ri para não chorar.
Pra resumir a ópera: como o RER é um trem rápido, que leva para subúrbios bem distantes, fomos parar na primeira estação depois do engano... Juvisy, a 25 km de Paris. Você olhava pela janela e o Sena já corria pelo meio do mato.
Descemos na estação, demos a volta, achamos a plataforma certa para esperar o trem... e ficamos lá esperando... esperando... por duas horas e meia. E é comum que os trens demorem tanto pra passar por lá?
Não! Mas nós ainda demos a sorte de um cidadão resolver se matar na linha do metrô e atrasar toda uma leva de vagões! Quer dizer, que infelicidade desse indivíduo, viu. Acho que tem que estar morrendo de ódio do mundo pra bolar algo tão vingativo quanto se matar na linha do metrô. Você consegue ferrar com o funcionamento de uma cidade inteira, por horas a fio, é uma vingança perfeita!
Sem falar que, ainda, pra piorar, fomos comprar uma água nessas máquinas de venda automáticas e a desgraçada ainda teve a cara de pau de engolir nossas moedas sem dar nada em troca. =(
No fim, chegamos na Torre, com ela já bem iluminada, sem idéia de horário e se ela ainda estaria aberta. Com o ódio que estávamos, aposto que teria sido possível escalá-la caso não nos deixassem subir pelas vias normais. =P Sem contar que isso tudo foi feito sem celular, e a essa altura da vida, minha mãe já se descabelava pensando que tinhamos sido mortos em algum acidente terrível.
Moral da História: se perder só é legal quando você descobre um barzinho, um pôr do sol numa praia deserta ou quando você quer se perder. Quando você tem um lugar certo que quer visitar, se perder sucks, porque, no geral, o que você vai encontrar não é uma paisagem magnífica, mas uma cidade no meio do nada, como a que eu fui parar.
E vai por mim, quando você vai parar em Juvisy, você não só se perde, mas perde também seu tempo, sua paciência e sua sanidade mental. Por isso, não tenha vergonha de perguntar, caso não tenha certeza se está indo pro caminho certo. Especialmente se você está sem celular.
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