Hoje, depois de uma semana bem adoentada, eu resolvi que já estava boa o suficiente pra me aventurar pelo mundo lá fora. Pros parisienses, esse fim de semana foi um bem especial: ao mesmo tempo aconteceram as Jornadas do Patrimônio Histórico - ou seja, você podia ter acesso à alguns monumentos que não estão normalmente abertos ao públicos, como o Senat - e também foi quando ocorreu uma das festas mais tradicionais da região: A Fête de L'Humanité. Ah, sem esquecer que no sábado foi dia da Techno-Parade por aqui, uma parada que acontece desde 1998 para reivindicar a existência de uma cultura eletrônica.
Bom, fim de semana agitado e eu mal podendo sair de casa com tantos eventos - especialmente um que era tão importante e totalmente a ver com meu campo de estudos. Por que resolvi sair para ir na tal da Fête de L'Humanité justamente?
Pra quem não tem muito contato comigo, eu posso até passar a impressão de ser uma pessoa pouco ligada em política. No entanto, essa é uma idéia que se desvanece rápido a partir do momento que você entra no assunto. Eu acho política simplesmente fascinante e tenho minhas idéias queridas de mudar o mundo um passo de cada vez, as quais cultivo desde a mais tenra idade.
O que isso tem a ver com a Fête de L'Humanité? Bom, em primeiro lugar, além do nome significar "Festa da Humanidade", eu devo acrescentar a pequena informação que L'Humanité é um dos jornais tradicionais franceses, posicionado abertamente à esquerda.
Ah, é, essa é uma diferença importante que eu gostaria de ressaltar. Enquanto no Brasil nos esforçamos para reafirmar o mito do jornalismo imparcial aqui as coisas funcionam de outro modo. Como não existe jornalismo imparcial e afirmar que o jornal é isento de posições políticas seria enganar deliberadamente o leitor (Veja, estou olhando pra você) aqui eles declaram abertamente qual é a filiação política do informativo. Assim, você pode comprar jornais de várias frentes e tentar montar o seu quadro de informações com o que você ler em todos eles.
Um professor meu de Geografia Geral e Humana na faculdade uma vez fez a seguinte piadinha: "Sabe qual é a diferença do Estado de SP pra Folha de SP? O Estado é um jornal mau caráter... e a Folha é um jornal sem caráter."
Na minha opinião não existe nada de errado com a existência da Veja, do Grupo Abril, como um todo, da Folha e tudo o mais... eu quero mesmo que eles tenham a liberdade de divulgar as informações do jeito como as perceberem! Agora, tentar me vender isso como a verdade universal e imparcial... é contra essa sacanagem que eu protesto.
Mas estou divergindo.
O mote do jornal L'Humanité é justamente "Envies de changer le monde.", algo como "vontade de mudar o mundo". Ah, também é legal dizer que "Le Monde" é um outro jornal, abertamente de direita. ;) Ironia é uma benção.
A Fête de L'Humanité é, basicamente, uma grande feira ao ar livre, com estandes diversos e vários shows que, aliás, não são a principal atração, embora sejam divertidos e variados: jazz, rock, música popular (esse ano na sexta-feira teve até a Avril Lavigne...). Mas, antes de tudo, a Fête de L'Huma é uma festa política: um lugar aberto para debates, conduzidos, sim, pelo Partido Comunista Francês e pelo jornal que dá nome.
Ela acontece anualmente e foi criada em 1930 - é engraçado, eu sabia que a festa era uma tradição, já que meus pais a frequentaram quando moraram aqui em 1983. Eu sabia que ela deveria ter pelo menos 3 décadas, mas eu nunca poderia colocar suas origens tão longe no tempo. Acho interessante que quando falamos em eventos no Brasil, eventos tradicionais, estamos no geral falando de eventos que acontecem há... 5 anos seguidos, ou algo assim. Exceção óbvia disso é o Rock in Rio, que não acontecia no Rio já há uns dez anos, e que também não é anual (aliás, pelo que eu entendi, ele não tem nem uma certa regularidade...).
Mas o que me deixou mais impressionada? É que as pessoas realmente vão pelos debates. Sabe, apesar de ter um parque de diversões (daqueles de circo e feira), apesar de ter shows interessantes, e apesar de você ter uma espécie de feira de gastronomia ali - já chego lá - as pessoas realmente estão lá pra parar e conversar.
Você entra no espaço e recebe folhetos sobre uma palestra com diretor de um fundo de ajuda humanitária que vai lá discutir saídas alternativas pro capitalismo. Ele não está nem na lista de convidados e o debate vai ocorrer num estande meio escondido... mas pode acreditar: tem gente assistindo! E não só três pessoas, mas pelo menos umas 25! E se você pensar que isso acontece por 3 dias, e a área da festa é do tamanho de, sei lá, Interlagos.... é, eu realmente acho a coisa impressionante.
Eu, particularmente, não fui assistir nenhum show. A melhor época de shows nesse evento já passou (e eu não quis dizer que eu queria ter necessariamente assistido Julien Clerc ao vivo lá, mas sei lá, quando você pensa que até Pink Floyd e Deep Purple já tocaram ali...). Eu fui pra conhecer o ambiente e, mais, para visitar a "Village Monde". Explico:
Essa é uma área da convenção onde partidos comunistas do mundo inteiro montam seus estandes e promovem palestras (bem como comidas e bebidas, nham!) de seus respectivos países. Ah, eu disse países? Bom, talvez essa não seja exatamente a palavra. Está mais para grupos interessados e ligados à política de esquerda que tenham uma identidade cultural. Eu nunca vi um Curdistão representado em nenhum outro lugar do mundo, mas fiquei realmente orgulhosa de vê-los lá. Acho, claro, que tem algumas coisas ali que poderiam estar melhor revisitadas: por exemplo, quando passei no estande da Irlanda para pegar Guinness a um preço ridículo, após comprar minha bebida, notei que o lugar era, na verdade, comandado por militantes do IRA. Embora a camiseta escrito "I still hate Tatcher" seja uma tirada engraçada, não acho que a causa realmente expresse mais alguma coisa. Quem sou eu pra julgar, mas enfim, é minha opinião.
Cuba obviamente tinha o maior espaço dos estandes latino-americanos, o que eu achei super interessante, especialmente para conhecer um pouco mais do país que eu ainda um dia quero visitar. O Brasil, no entanto, não estava ali (muito) mal representado: nós tinhamos três estandes próprios!
Dois deles estavam unidos: um era o estande de cultura afro-brasileira e o outro... era o do Movimento dos Sem Terra! Eu estava curiosíssima para saber qual seria o partido de extrema-esquerda que iria mandar sua representação para lá (e fui eu temendo uspianos sem noção de realidade). Não! Lá estava o único movimento de extrema esquerda o qual eu realmente boto alguma fé: minha aposta pra um representante progressista digno é que ele será oriundo desses fins.
Lógico que também tinhamos (bem afastado, interessante notar) um estande do hoje risível PC do B. Eles se contentaram em fazer caipirinhas e coisas típicas, pelo pouco que eu vi, já que não notei nenhuma agenda política no encontro. Pena. O MST estava a todo vapor explicando pra quem quisesse ouvir qual era a situação da distribuição de terra no Brasil.
Infelizmente, meu estômago ainda debilitado pela virose horrível que tive não me deixou experimentar a comida típica de Madagascar (que estava cheirando tão bem) e nem outro dos milhões de coisas especiais que estavam sendo feitas no lugar.
Foi um dia extremamente interessante: pude sentar na grama em frente ao palco principal e ficar ouvindo os debates e discursos políticos dos participantes e diretores da Front Gauche - é legal lembrar que eles estão se aproximando das eleições e a esquerda não tem um candidato sólido (o sr. DSK não era lá uma opção muito boa, vamos combinar) para enfrentar nem o candidato da situação, senhor presidente Sarkozy, e nem para bater de frente com a candidata mais assustadora dos últimos tempos: Marine Le Pen, uma mulher que, no alto das comemorações dos 30 anos da abolição da pena de morte, resolve relançar o debate com intenção de restaurá-la...
Como bem disse um dos discursantes, diretor da Front Gauche, antes de colocar a Marselhesa pra tocar, "Nós gostaríamos que essa fosse a última festa da humanidade. Que fosse o fim das ajudas internacionais. Que fosse a última noite que crianças não tivessem o que comer e que pessoas dormissem na rua. Que a humanidade percebesse enfim que viver é uma festa.".
A Fête ocorre todo ano, segundo fim de semana de setembro. Se você não tem alergia à política (e se tiver, eu recomendo ir de qualquer jeito que se o choque não te matar, CERTAMENTE vai te curar!), é um evento importante e interessante da vida cultural daqui. Eu me diverti e aprendi muito. Vamos ver se não dá pra trazer uma dessas por Brasil. Vou dizer que estamos precisando.
AH, um P.S - Queridos organizadores de eventos brasileiros: eu descobri que vocês me enganaram todo esse tempo. DÁ PRA TER BANHEIROS MELHORES QUE BANHEIROS QUÍMICOS NUM EVENTO MÓVEL SIM. O que eu fui hoje tinha descarga, papel higiênico e não cheirava mal. Por favor, trabalhem nisso, tá? =)
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