domingo, 25 de setembro de 2011
Direitos & Privilégios
Esse é um trecho do documentário do Michael Moore chamado SICKO que, em português, ficou S.O.S Saúde. Está em inglês, com legendas em francês, mas é relativamente simples de se entender, então, tentem, que vale a pena.
Pra quem não estiver afim ou não conseguir, não se preocupem, eu farei um resumo dele: basicamente, Michael Moore vem até Paris e compara o sistem a de saúde estadunidense com o sistema de saúde francês.
Ele conversa com um rapaz que morou toda sua vida adulta nos EUA... até descobrir que tinha um câncer e que não poderia ser tratado lá por não ter seguro de saúde. Na França, ele foi acolhido e tratado sem que nenhum maior questionamento fosse feito.
Ao conversar com outros americanos radicados em Paris, ele fica embasbacado ao descobrir que a educação é pública, a saúde, de graça, e quando você tem filhos, uma babá do governo é mandada pra sua casa para te ajudar.
Isso tudo sem ficar sufocado em taxas ou se matar de trabalhar. A produtividade francesa ainda é maior do que a média dos estados americanos.
Ele se pergunta, ao fim do vídeo, porque a propaganda norte-americana quer que os estadunidenses odeiem os franceses: será que é por medo de que os americanos possam gostar do modo de vida francês? E querer se tornar como eles?
Uma das moças do vídeo explica que o problema dos Estados Unidos é que o governo não tem medo do povo (como na França), mas que o povo tem medo de seu governo.
Sem entrar no mérito de como nós temos um problema similar (afinal, ranço da ditadura, etc, etc), eu queria comentar um outro momento em que uma das moças diz: "Eu me sinto culpada. Estou recebendo aqui, de graça, algo que meus pais, que trabalharam a vida inteira, nunca nem chegaram perto de ter.".
É interessante o sentimento de privilégio. Por um lado, me sinto privilegiadíssima - tenho uma família capaz de me bancar aqui, que me possibilitou essa oportunidade em todos os sentidos possíveis. Por outro, vir para cá muitas vezes acentua aquela sensação de que o mundo é um lugar verdadeiramente injusto.
Veja bem, outro dia, fui num dos monumentos de Paris, visitar a tumba do querido Imperador Napoleão. Meu namorado não precisou pagar a entrada - afinal, ele é jovem e saído da União Européia, tem passaporte português. Eu precisei pagar 9 euros, mesmo eu sendo tão jovem quanto ele, tão estudante quanto ele, e tendo exatamente o mesmo montante que ele para minha estadia aqui.
Em outros momentos, discutindo com pessoas daqui percebo a facilidade que eles tem em relação ao mundo: "Talvez eu vá trabalhar na Finlândia, na Suíça, ou em Londres, ou então, em Paris. Acho que talvez uma empresa me chame nos EUA.". E, honestamente? Eu aposto que se a figura quisesse ir trabalhar no Brasil, não encontraria o menor problema em realizar seu intento - aliás, com o nosso complexo de vira-lata, provavelmente vai entrar em cargos de diretor ou algo do gênero. Sem nem falar português, essa língua tão inferior e complicada. Melhor mesmo é o staff dele aprender inglês. Ou francês, que voltou a ser chique.
Agora... se eu quiser fazer um intercâmbio pra Londres, que fica a 3h de Paris, preciso voltar para o Brasil e me aplicar por um processo que decide se sou ou não merecedora da honra de passar um tempo delimitado como cidadã de segunda classe por lá. E isso porque sou uma pessoa com uma carinha razoavelmente européia - não vou nem entrar na questão árabe-africana-oriental-qualquer-um-que-não-seja-caucasiano.
Essas pessoas, apesar do que quer que a gente escute no Brasil, são tão iguais quanto eu e você. São pessoas normais: podem ser boas, más, babacas ou interessantes. O único motivo pelo qual elas podem e eu não: deram a sorte de nascerem no lugar 'certo', enquanto nós, cidadãos do terceiro mundo, temos que ficar com essas imposições.
Mesmo que a economia brasileira esteja discutindo um pacote de 'ajuda e resgate' pra economia européia.
Esses questionamentos me perseguem, em alguns dias. Com que direito sou julgada como pior do que um europeu (ou um descendente com comprovação documentada!)? Com que direito sou julgada melhor do que uma iraquiana, uma marroquina, um coreano, apenas por ser brasileira?
Aqui na França, como mostra o vídeo do Moore, temos alguns avanços capitais em relação à outras partes do mundo, especialmente no que toca direitos humanos. No entanto, não é um paraíso, como alguns podem pensar. Não é perfeito.
Esse não é um post acabado, como não está acabada a luta pelas melhorias no mundo inteiro. Ainda voltarei a falar sobre isso, e sobre o papel do Brasil na visão internacional. Mas como uma impressão dos meus primeiros dois meses, acho muito interessante remarcar esse detalhe. Espero voltar mais tarde e rever esses conceitos.
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Um comentário:
Muito bom pra variar maninha
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