segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Historicidade.

Às vezes, acho que não consigo encontrar palavras suficientes para descrever o que eu sinto por estar em Paris. E não consigo mesmo. Toda vez que eu penso em algo que me faz ficar triste, como a distância dos meus pais ou os problemas do dia-a-dia - por exemplo, como fazer para lidar com um banco em francês ou ai-meu-deus, vou ter que comer a minha própria comida de novo! - eu noto alguma coisa que não tinha pensado antes.

Ontem eu fui passear pelo Parc Mountsouris, que eu comentei no post passado. Mesmo chovendo, não foi um passeio inútil ou desperdiçado. Foi interessante - eu vi as estátuas, a entrada dos antigos esgotos de Paris, além de ver todo tipo de cachorrinho firfo. Lógico, Paris tem chovido e ontem eu me molhei um pouco, o que sempre sucks um pouquinho.

E daí teria sido isso -divertido e legal - mas nada demais, se ontem eu não tivesse escrito o post sobre os parques. Hoje, quando fui rever o link sobre o Parc Mountsouris, eu notei algo: um comentário sobre um restaurante que fica lá no parque e que é antigo (além de ser super caro, custando 50 euros o menu).

Ora, meus pais sempre comentaram sobre esse restaurante- ele já existia na época deles e eles bem que sempre quiseram comer lá um dia. Acho que nunca comentei que meus pais moraram em Paris, né? Pois bem, moraram. Claro, isso faz algumas eras - já que eu não era nascida na época - mas, enfim, meu pai, na sua juventude ainda cabeluda e minha mãe na sua juventude onde era super legal usar permanente, moraram aqui mesmo, na Maison du Brésil, por 3 anos e pouco.

E daí que eles também gostavam de passear pelos mesmos caminhos que hoje eu passeio no mesmo Parc Mountsouris.

E SABE QUEM TAMBÉM GOSTAVA DE PASSEAR NESSE PARQUE?

Ninguém menos do que Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir. E se você acha que isso é pouco, camaradas Lênin e Trótsky também achavam SUPER legal ir por ali. E sabe onde eles gostavam de ir depois de uma longa e relaxante caminhada?

Pro restaurante que eu acabei de mencionar.

O que explica completamente porque o menu custa 50 euros. Se Beauvoir e Trotsky tivessem comido no meu restaurante, eu também ia cobrar uma nota pra sentar nas mesmas cadeiras que eles. Tá, mentira, eu não ia. Mas ainda assim, é super awesome. Eu ia por uma placa.

Então, só pra recapitular, o mesmo parque foi construído em 1878. Ele estava lá na época da Exposition Universelle de 1889, ano de inauguração do restaurante que eu mencionei. E toda vez que eu ando por lá, eu estou passando pelos mesmos caminhos que Sartre, Beauvoir, Lênin, Trótsky, Luis Fernando Alonso e Claudia Maria Rodrigues Alonso (por coincidência, pais da ilustríssima que vos escreve ;). QUÃO AWESOME É ISSO?

Talvez seja só eu, mas o parque acabou de ficar mais bonito. E muito mais interessante. É a tal da Historicidade. ;)

---


Um pequeno excerto sobre historicidade, retirado de O Homem do Castelo Alto, de Phillip K. Dick.

— Bom, vou lhe contar — disse ele. — Todo esse negócio de
historicidade é besteira. Os japoneses são meio malucos. Vou provar.

Levantando-se, foi ao escritório e voltou com dois isqueiros que colocou
na mesa.

— Olhe estes. Parecem idênticos, não é? Pois ouça. Um tem
historicidade. — Riu para ela. — Apanhe os dois. Um vale uns quarenta ou
cinqüenta mil dólares no mercado dos colecionadores.

A garota apanhou cuidadosamente os dois isqueiros e examinou-os.

— Não está sentindo? — mexeu com ela. — A historicidade?

Ela disse:

— O que é "historicidade"?

— É quando uma coisa contém história. Ouça. Um desses dois isqueiros
estava no bolso de Franklin D. Roosevelt quando foi assassinado. O outro
não estava. Um tem uma tremenda historicidade. Tanto quanto qualquer
outro objeto já teve. E o outro não tem nada. Dá para sentir? — Deu-lhe uma
cutucada. — Não dá. Não dá para saber qual é qual. Não há nenhuma
"presença plásmica", nenhuma "aura" em torno deles.

— Puxa — disse a garota, agora visivelmente impressionada. — É mesmo verdade? Que ele
estava com um desses no bolso naquele dia?

— Claro. Eu sei qual dos dois era. Você vê onde quero chegar? É uma
grande trapaça; e estão todos se enganando. Quero dizer, um revólver
sobrevive uma batalha famosa, como a Meuse-Argonne, e é a mesma coisa
que nada, a não ser que você saiba. Está tudo aqui — indicou a cabeça. —
Está na mente, não no revólver.


[e só por que está na mente significa que é uma besteira?]

4 comentários:

Aquele Cara disse...

Finalmente consegui entender esse livro! Como eu já disse antes, Raíssa em Paris é definitivamente de utilidade pública, hehe

Anônimo disse...

Estar em Paris vivendo essa experiência é algo que fará parte de sua história.Gostei demais.

Rodrigo Sérvulo disse...

Ótimo trechinho. Simbolismo é tudo. A nossa vida inteira funciona na mente. Semiótica, baby. AHUUAHHUA A gente só vive porque atribui sentido às coisas. E que parque fudido. Além do que, pode ser até útil, né. De alguma forma para sua pesquisa. AHUAUHA. Sei lá, ele já existia na época, pode ter algum registro awesome.

Eleonora disse...

Isso aqui ta bom demaaaais!