segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Raciste de m*!

De novo, um pouco de política no meu blog.

Estava eu no metrô, sentada, sozinha, lendo meu livro que preciso para a matéria de amanhã. Entra uma senhora, de seus quarenta anos, e senta-se no banco de trás. No banco ao lado, um indiano e um moço de semblante árabe se sentam, conversando em francês, educadamente, e vendo alguma coisa num computador.

A senhora começa a desbravar impropérios: esses imigrantes malditos que roubam nossos empregos, esses indianos fedidos, esses... - e nisso, os dois, de cabeça baixa, tentando controlar o sangue que fervia, ficaram na dele. Eu dei um olhar feio para a mulher e ela sustenta meu olhar. - ... e a mulher arremata, gritando, praticamente, para o vagão: esses negros de merda!

O indiano não se controla mais, joga suas coisas no chão e grita: "RACISTE DE MERDE!". A senhora se levanta - bem como o vagão.

Eu, que tinha visto um homem, tipicamente francês, branco, olhos azuis, ficando vermelho - ele levantou e eu pensei que ele poderia pular na mulher, com tanta raiva que transbordava da cara dele. Comecei a pensar que ia dar, literalmente, 'merde', como disseram os franceses.

Levanta-se um anjo que salvou a situação: uma moça, com a cara mais francesa possível, jovem e manda a mulher ficar quieta. Ela pediu desculpas, muito sabiamente, e disse que aquela senhora gagá não representava o verdadeiro povo francês e que ela se sentia envergonhada pelas ações daquela ridícula.

Crise contornada, minha estação chegou. Eu desci, junto com a francesa. Agradeci, ela sorriu. Afinal, para ser muito honesta, embora as palavras não tenham sido dirigidas à mim, que teria dito aquele 'ser' se soubesse que eu era, também, uma imigrante de m*? Alguém que, mesmo que por um ano, estava usufruindo de seu país?

Duas coisas me chamaram a atenção: em primeiro lugar, que pessoas tão imbecis possam vomitar seus preconceitos em voz alta aqui, nos vagões do metrô, e se sentirem à vontade. Em segundo lugar, que uma jovem esteja pronta à defender seus pares - os outro seres humanos, bem entendido - e com tanta vêemencia.

Esse fim de semana foi de suma importância para o futuro das eleições aqui na França: François Hollande, e não Martine Aubry, foi escolhido para ser o candidato do Partido Socialista. É ele quem posa a oposição para Sarkozy e Marine Le Pen. Pelo que vejo: não é isso que o povo francês está clamando. As pessoas pedem mudanças - e François Hollande não é tido como um homem de ação. Vamos ver aonde isso vai levar.

O movimento Ocupe Wall Street aqui tem tomado formas diferentes: não é, definitivamente, apartidário nem sem uma agenda política. O problema é que ele está ligado, também, a partidos de extrema direita, com aquela visão de "França-para-a-minha-definição-de-franceses". Acho que isso é um sinal negativo. Posso estar enganada em relação à isso: saberei melhor ao acompanhar o Ocupem La Defénse, no dia 5 de novembro.

Estamos num momento de mudanças, disso eu não tenho dúvidas. Um momento de transição, de dúvidas, de um monte de coisas - uma maré de acontecimentos que pode tanto nos levar para um mar revolto quanto à uma praia deserta. Acompanhar, participar, essa é uma tarefa de todos nós - o mundo pode e deve ser mudado.

E mais - o mundo VAI mudar, você queira ou não. Mas temos que participar, se quisermos ter alguma influência em que rumos ele vai tomar.



The Times They Are A-Changin.

Você pode fazer parte disso ou ver a mudança passar por você. Your call.

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