sábado, 30 de julho de 2011

Pour qui sonne le glas.

Uma das coisas que nunca deixam de me surpreender em Paris é o preço dos livros. Nos sebos, nas bancas do Seine, em todos os lugares - livros e mais livros e mais livros pelo preço de um trocado que estiver perdido no seu bolso.

Quando você pensa no quanto custa um livro - um bom livro - no Brasil, começa a vir um ódio profundo desse meio editorial e dessa tara pelos malditos livros novos. Livro é pra ser lido, gente... não adianta nada colocar pra vender à 50 reais e esquecer que isso dá mais ou menos 8% de um salário mínimo.

E enfim, já que cheguei na cidade há apenas três dias, e, como tive medo de ultrapassar meu limite de bagagens caso resolvesse trazer muitos livros, estava eu um pouco desprovida de material pra ler... além de estar caçando algo interessante em francês para treinar um pouco!

Logo, fui lá eu perambular pelo centro, ainda com minha família, para ver se, passeando um pouco, acabava topando com um livro que me interessasse. Ao fuçar num sebo do Quartier Latin, perto da Rue Saint-Andre-des-Arts (à qual eu recomendo fortemente para quem quer ter um gostinho de Paris e comer bem e não tão caro!), acabei me encantando com Pour qui sonne le glas (Ou Por Quem Os Sinos Dobram, em português), do autor estadunidense Ernest Hemingway. E o melhor é que custava só $1,20! Awesome, eu pensei!

Fui levar para o caixa (e no caminho também encontrei Chocolat, da também awesome Joanne Harris, que eu aproveitei pra levar por $0,70, hehe) quando me deparei com uma cena que me emocionou um tanto quanto.

Entra no sebo um senhor, muito velhinho, com uma roupa que parecia mais um trapo de esfregar o chão - e daqueles que a gente já tá prestes a jogar fora, sabe? O senhorzinho, de olhos castanho mel e cabelo branco comprido, sem pentear, exalava um cheiro daqueles de quem não toma banho há meses (se é que toma...). Ele era um clochard: um sem teto que no geral, só tem o suficiente pra comprar comida ou vinho, segundo alguns. Me parecia mais um mendigo daqueles que a gente vê no Brasil mesmo, não sei se tem toda essa filosofia ou glamour ou vagabundagem como alguns apontam...

Enfim, a mulher do caixa, com um desdém imenso, vira e diz para minha mãe, que estava me acompanhando na ocasião: "Vou passar ele na sua frente porque ele fede à esgoto!". O homem, velhinho, juntou suas moedinhas, deu os cinquenta centimes pra moça e levou embora seu recém comprado livro.

OK, eu não sei exatamente o que dizer desse tipo de choque cultural. Não sei se, como me apontaram, essa história de "viver sem teto na Europa é uma filosofia de vida", até porque já ouvi muita coisa parecida aqui no Brasil. E soa DEMAIS como aquela máxima de que pobre só é pobre porque quer. A vontade que dá pra quem diz uma besteira dessas é responder com "E você, é desinformado porque é conveniente ou é porque é burro mesmo?".


Agora, comentários à parte sobre situações da mendicância nacional e internacional, o que me chama a atenção é que aquele senhor tinha idade para ser meu pai ou meu avô. Com o que eu sei dessa crise atingindo pequenos empresários e destruindo famílias, ele realmente poderia ser meu pai ou meu avô (OK, não meu avô que esse já morreu mesmo...).

E, em vez do cara estar comprando vinho barato, drogas ou, sei lá, algo básico como comida, o senhorzinho estava comprando um livro. E daí que me deu aquela vontade de chorar.


Nenhum homem é uma ilha, isolada em si mesmo - cada homem é um pedaço de um continente, uma parte da terra. Se um seixo é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria. A morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade e, por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

- John Donne, poeta inglês, prefaciado no "Por quem Os Sinos Dobram". Tentei fazer uma tradução livre da tradução que eu tenho em francês, e que, pessoalmente, acho bem mais bonita do que essa coisa aí que eu fiz. ;)


E Hemingway é awesome, gente.

Um comentário:

Eleonora disse...

Amei....de novo! Acho que vou ficar repetitiva! OBA! :P