- Véspera de viagem, campainha...
- Não me sobreavisem estridentemente!
- Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
- Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
- Do comboio definitivo,
- Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
- Antes de pôr no estribo um pé
- Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
- Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
- Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
- Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
- Que importa?
- Todo o Universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.
- Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação...
- Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
- Minha família abstrata e impossível...
- Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
- Ficar como um volume rotulado esquecido,
- Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
- Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida —
- "E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?" —
- Ficar só a pensar em partir,
- Ficar e ter razão,
- Ficar e morrer menos ...
- Vou para o futuro como para um exame difícil.
- Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?
- Já me vejo na estação até aqui simples metáfora.
- Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
- Vê-se — dizem — que tenho vivido no estrangeiro.
- Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
- Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vicio vil.
- E a mão com que pego na mala treme-me e a ela.
- Partir!
- Nunca voltarei,
- Nunca voltarei porque nunca se volta.
- O lugar a que se volta é sempre outro,
- A gare a que se volta é outra.
- Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
- Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!..
Pra mim, viajar nunca foi uma coisa simplesmente fácil. Não sou daquelas pessoas despreendidas, que carregam a mochila leve, como naquele filme Amor sem Escalas, do George Clooney. Não me entendam mal, eu amo viajar, caso contrário, não resolveria ter essa experiência de intercâmbio durante um ano na Europa.
Mas amo viajar porque amo conhecer culturas novas, submergir em águas semi-desconhecidas, me surpreender com figuras que não tiveram uma criação igual à minha. Por estar me graduando na faculdade de História, amo com paixão redobrada os lugares cuja história conheço de outros carnavais. Não viajo para fugir do lugar de onde vim e das pessoas que conheci - em geral, estou muito bem com ambos.
Ainda assim e por isso então, toda vez que chega o momento, junto com aquela ansiedade incontrolável de que o avião decole, uma certa nostalgia se apodera de mim. Acho que é meio que natural que, junto com toda a euforia, venha não só o medo do novo, mas também o conhecido receio de abandonar o velho, o conhecido, o seguro - perdê-lo, talvez para sempre, numa curva do rio do Tempo e ao reencontrá-lo, se reencontrá-lo!, ele não mais ser o que sempre havia sido (e será que sempre havia sido? Ou teria eu já o perdido sem nunca perceber e reencontrado sem nunca me dar conta de suas mudanças?)
E isso tudo é parte da graça da viagem.Ou talvez essa seja só eu.
De qualquer forma, o título desse post corresponde ao título do poema de Álvaro de Campos que coloquei ali em cima. Foi pensando no medo de partir que resolvi fazer esse blog - jogar umas pedras atrás de mim para que quem esteja por vir possa enxergar um caminho trilhado, e, quem sabe assim, diminuir o medo dessa partida.
E aqui, junto com um pouquinho de experiências pessoas, eu espero poder compartilhar um pouco mais da minha viagem, dos preparativos e dicas, em geral, sobre Paris e o mundo mágico dos intercambistas.
Porque, como bem colocou o poeta, apesar do medo de partir, navegar é preciso. E só quem parte rumo ao desconhecido, sabe onde é traçada a tênue linha dos seus próprios limites.
Um comentário:
AMEI o post. E logo de cara meus olhos se encheram de lágrimas. Você acredita que durante o ano que fiz o intercâmbio na França (tbm), fiz um blog (tbm) e ele era cheio de poemas de Pessoa (tbm!) pq se encaixavam demaaaaais (tbm!).
Cada vez, eu fico mais feliz de ter te dado aula! :)
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