quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Guest Post: Mitos sobre a Europa.

Como não tenho tido muito tempo - fase de entrega de trabalhos na faculdade é dura... - eu resolvi deixar o namoradón escrever um post, só pra dizer que eu não abandonei para sempre o bloguinho. =) Como essa é a primeira vinda dele pra Europa e ele está aqui há menos tempo do que eu, vou deixá-lo descrever o processo de desencantamento e desmistificação que acontece com todo mundo que vem pra cá. Desculpem a ausência de posts nos últimos dias!


A Raissa me pediu pra escrever algo para o blog, e eu inicialmente estava meio sem idéias, realmente sem saber por onde começar. Ela já abordou a maioria das experiências interessantes aqui na Franca. No entanto, uma coisa que eu penso muito desde que eu cheguei aqui, mas que a Raissa não abordou, principalmente porque ela já tinha vindo pra cá antes, são os mitos brasileiros com relação à Europa e ao povo europeu.

Desde moleque, principalmente através de membros da minha família que vieram pra cá, e por estereótipos freqüentemente usados pela mídia, eu criei um idéia na minha cabeça sobre o que era a Europa que, vindo pra cá, comprovei ser, na maioria das vezes, equivocada. Assim, resolvi fazer uma pequena lista desses mitos, seguidos do que eu contatei pela minha experiência.


-Atendentes mal-educados: Embora esse mito esteja em geral mais ligado com a Franca, a Europa como um todo carrega essa imagem dos atendentes e garçons que vão te tratar que nem lixo. Pra mim esse é um dos menos reais, embora até mesmo alguns europeus, como os russos do meu curso de francês, concordem com essa idéia.

Desde que cheguei aqui, na Inglaterra, e mesmo na Franca, os atendentes não só de restaurantes, mas de bibliotecas e lojas em geral, tem sido bastante pacientes e simpáticos comigo, sendo que cheguei mesmo a ter curtas conversas com alguns. Há problemas sim, e o maior deles é que o atendimento por aqui é lento. A maioria dos lugares não tem muitos atendentes, e mesmo no McDonalds é raro ver todo mundo correndo pra atender o mais rápido possível; aqui, as leis trabalhistas dificilmente permitem que o empregado seja despedido por isso.

Apesar disso, a cortesia com o cliente nunca é um problema aqui. A grande diferença, e que em minha opinião, é o que faz as pessoas terem a impressão errada, é que não existe a ideologia « o cliente tem sempre razão ». Uma coisa bem verdadeira que se pode dizer sobre a maioria dos europeus é que eles valorizam muito o respeito. E isso vale para todos. Então, sim, se você desrespeitar um garçom ou algum outro tipo de atendente, ele vai te servir mal, e pode até retrucar o seu desrespeito. Porque aqui ninguém se sente menor, ou no dever de agüentar ser mal-tratado só porque é um faxineiro, ou garçom. Além disso, ninguém é realmente obrigado a adivinhar o que você esta querendo dizer em português num restaurante Frances.

Resumindo, trate as pessoas com respeito aqui, e elas te respeitarão de volta.

-Os franceses (e demais europeus) têm ódio de americanos: Esse é um mito que tem um fundo de verdade, mas eu diria que o inverso também é verdadeiro (provavelmente mais verdadeiro), e, além disso, tem bom motivos pra ocorrer.

Em primeiro lugar, a Franca não tem realmente nenhuma rixa com os EUA. Na verdade a sociedade francesa tem bastante apreço pelos Estados Unidos, e coisas como o cinema e a musica americana são sim apreciadas por aqui. Claro, os franceses e demais europeus dão muito valor a sua própria cultura, então você sempre vai ver filmes franceses fazendo sucesso e músicas francesas tocando na radio. Mas os filmes hollywoodianos também têm grandes bilheterias aqui, e um dos estilos de musica mais apreciados em Paris é o Jazz, tradicionalmente americano (embora a Bossa Nova, que não deixa de ser um jazz brasileiro, também tenha bastante espaço aqui na Franca). Quando fomos para a Normandia estava até mesmo rolando um festival de cinema americano, com direito a bandeiras dos EUA penduradas pela cidade de Deuville.

O que é verdade, no entanto, é que os franceses têm problemas com turistas americanos. E com um bom motivo, pois a maioria dos americanos que vem para a Europa tem a mania de achar que deve sempre ser atendido primeiro, e do modo como seria nos Estados Unidos, ou melhor. A maioria deles tem uma tendência muito forte a falar alto e se sentirem meio que donos do lugar onde quer que estejam, falando em inglês rápido sem nem ao menos tentar entender a língua local, e esperando que todos entendam seu inglês de pronto.

Claro, isso tudo é uma generalização, mas é comum ver acontecer, principalmente em grandes grupos. Além disso, esse tipo de comportamento não é exclusividade de americanos; a maioria dos grupos grandes de turistas age desse modo, em qualquer lugar. Mas, em geral, por aqui você percebe primeiro os americanos, de modo que os franceses e outros europeus têm sim problemas com turistas americanos, mas não necessariamente com qualquer americano, ou com os Estados Unidos em si.

-Na Europa ninguém joga lixo na rua / Os franceses fedem: O simples fatos de esses dois mitos serem uma antítese entre si já deveria mostrar quanto eles não são reais, mas vou falar deles mesmo assim, pois são bastante populares no Brasil.

A Europa não é exatamente um lugar tão limpinho assim. E não estou falando só de Paris ou da Franca, mas também na Alemanha, na Inglaterra, e em todo lugar. Aqui, as pessoas têm sim o habito de jogar coisas na rua e de fazer as suas necessidades em lugares não muito apropriados. Nada que não estejamos habituados no Brasil, mas, além disso, não é incomum encontrar embalagens e outras coisas jogadas no metro, até mesmo dentro dos trens. Além disso, geralmente os metros fedem um pouco sim, coisa que eu pelo menos nunca vi no Brasil, embora ande todos os dias de metro em São Paulo, e em todas as linhas.

No entanto, não é justo dizer que Paris, ou qualquer outra grande cidade daqui é suja. Não são, mas também não é um paraíso de limpeza como às vezes ouço certas pessoas falando, e os europeus tem quase tanta probabilidade de jogar algo na rua quanto à gente (com a diferença que não tem nenhum pudor especial com os metros como nos, o que provavelmente tem a ver com o fato de que aqui a maioria das estações não passam de práticos e baratos buracos no chão com um plataforma, e não as grandes obras de arte que adoramos fazer das nossas estações de metro em São Paulo e no Brasil como um todo).

Por outro lado, essa historia de que europeu não toma banho e são todos fedidos, também é balela. Eles têm, de fato, alguns hábitos diferentes dos nossos, pois suas culturas são diferentes, com certos detalhes essenciais (como um inverno realmente frio) muito distantes da realidade do Brasil. Assim, é comum que certas coisas como ver uma pessoa usando uma mesma roupa vários dias seguidos aconteça por aqui. Outro detalhe comum e que eu pessoalmente acho saudável, é que, de fato, as mulheres aqui não raspam suas pernas com a mesma freqüência ou intensidade que as brasileiras.

Por ultimo, as pessoas, como no Brasil, tendem a ficarem talvez com algum cheiro de suor depois de um dia inteiro de trabalho, mas isso é normal, como nos bem sabemos, mas parece ser uma grande surpresa para turistas que vem aqui esperando ver apenas pessoas cheirosas.

-Todo mundo é rico na Europa: A Raissa, e praticamente todo mundo que já passou algum tempo aqui, já flou algo sobre esse mito antes, mas acho que não tem problema repetir; Não, os europeus definitivamente não são todos ricos. Se você, como eu, considera os filhos de imigrantes nascidos na Europa como tão europeus quanto aqueles de família tradicional, isso é menos verdade ainda.

É verdade que existe muito menos diferença social aqui que no Brasil. Mas isso tem muito mais a ver com o menor numero de ricaços do que qualquer outra coisa. Mais do que isso, pela classe alta aqui não ser tão grande e considerada tão superior quanto no Brasil, o pessoal da classe média que (por enquanto) é a maioria real dos europeus, tem maiores direitos e acesso a muito mais facilidades que no Brasil.

Os governos, na Europa, em geral tomam muito mais conta dos seus povos, sendo que a maioria das pessoas tem acesso a coisas aqui que deveriam ser consideradas essenciais em todo lugar, mas que não existem de fato no Brasil, como faculdade de qualidade e realmente publica, e um sistema saúde realmente eficiente, além de direitos trabalhistas essenciais, como um salário e um numero de horas de expediente decentes, que permitem as pessoas morarem bem, embora raramente em casas enormes, como vemos fazendo qualquer um com mais dinheiro no Brasil, e viajarem com freqüência, o que, para nos, passa a impressão de riqueza.

Isso tudo na verdade, vem de uma tradição do povo na Europa, e principalmente na Franca, que é de reivindicar tudo aquilo que acreditam serem seus direitos e, mais do que isso, de não terem medo, ou de não considerarem como superiores, aqueles que são mais ricos, ou seu governo, como já fazemos no Brasil ha muito tempo.

Mas mais do que isso. Esse mito hoje em dia é ainda mais distante da realidade. Com a crise mundial, que é particularmente real aqui na Europa, certas coisas no dia-a-dia europeu tem mudado. E sim, a Europa não é mais exatamente um paraíso social, existem muitos mendigos na rua, e já nem todo mundo tem acesso ao padrão de vida melhorado da classe média européia, principalmente aqueles que não são tão considerados realmente europeus por seus governos, como os filhos e descendentes de africanos e pessoas de países muçulmanos, principalmente aqueles que continuam a praticar a religião, vista com muito maus olhos por aqui.

Apesar disso, os europeus continuam lutando por seus direitos até hoje, e não permitem que nem Estados e governos, nem outras pessoas mais ricas, como bancários e grandes empresários tirem esses direitos deles, e por isso, mesmo nessa crise, a diferença social aqui não chega nem perto de ser tão gritante como no Brasil.

Enfim, acho que esses são alguns dos grandes mitos que eu sempre ouvi o pessoal dizer sobre a Europa que se mostraram ser realmente irreais desde que eu cheguei por aqui. Achei que seria interessante desmistificá-los, porque, desse modo, pode ser até mais fácil ter uma experiência mais interessante e próxima da realidade da Europa pra quem for visitar ou passar um tempo por aqui.

Um comentário:

Vanessa à Paris disse...

Sumida, feliz Natal :)
beijosss